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Com atraso? Começa a floração dos ipês-amarelos na capital

Com atraso? Começa a floração dos ipês-amarelos na capital Carmem se deleita com o ipê a caminho do trabalho no Sudoeste - (crédito: Beatriz...


Com atraso? Começa a floração dos ipês-amarelos na capital
Carmem se deleita com o ipê a caminho do trabalho no Sudoeste - (crédito: Beatriz Mascarenhas/CB/D.A.Press)
Desabrochar das flores no início de agosto faz brasilienses questionarem se a espécie está atrasada em relação a outros anos; especialista explica como clima do Cerrado influencia o ciclo das árvores
Brasília começa, enfim, a ganhar seus tradicionais tons de amarelo. Depois de um julho com poucas árvores floridas, os ipês-amarelos começam a desabrochar pela capital neste início de agosto  ainda de forma tímida, mas suficiente para despertar a expectativa dos brasilienses que aguardam todos os anos pelo espetáculo.
O cenário, porém, levanta uma dúvida entre moradores: os ipês estão atrasados?
A percepção não é apenas de quem espera pelas árvores floridas. Segundo o biólogo Marcelo Kuhlmann, doutor em Botânica pela Universidade de Brasília (UnB), o período de floração dos ipês está diretamente relacionado ao regime climático. Chuvas fora de época ou uma demora para o estabelecimento da estação seca podem adiar o florescimento.
“O principal fator é o regime climático. Quando a seca demora a se consolidar ou ocorrem chuvas fora de época, a floração é adiada”, explica.
Da Asa Sul à Asa Norte, algumas árvores já começam a apresentar as primeiras flores. Na região da L2 Norte, a quadra 402, conhecida pelo colorido dos ipês durante o inverno, começa a recuperar o amarelo que costuma transformar a paisagem de Brasília.
Em julho, entretanto, o cenário foi diferente. Poucas árvores estavam floridas, frustrando quem já esperava pelos tradicionais tapetes de flores e folhas que se espalham pelas calçadas.
Pietra Mayrink, 23 anos, corre pela região pelo menos três vezes por semana e percebeu a diferença. Estudante de Direito, ela já esperava encontrar a quadra mais florida nesta época do ano.
“Honestamente, os ipês-amarelos são os meus favoritos, especialmente porque eles alcançam o auge justamente na semana do meu aniversário”, conta.
No próximo dia 28, Pietra completa 24 anos e espera que, até lá, Brasília esteja ainda mais amarela. Ela lembra que, no ano passado, algumas árvores começaram a florescer mais cedo, o que aumentou a sensação de atraso neste ano.
“Não minto que fico o ano inteiro esperando que os ipês apareçam. O amarelo, em especial, me passa uma certa resiliência”, afirma.
O relógio dos ipês é o clima
A impressão de que as árvores estão atrasadas tem uma explicação científica. De acordo com Kuhlmann, os ipês não seguem uma data fixa para florescer. O momento exato depende das condições climáticas registradas ao longo do período de transição entre as chuvas e a seca.
Quando as chuvas diminuem e a disponibilidade de água no solo cai, a planta recebe um sinal biológico para interromper o crescimento de novas folhas. A partir daí, direciona suas reservas para a reprodução.
Por isso, a floração pode variar de um ano para outro.
“Em anos com seca mais precoce, a floração pode ocorrer mais cedo. Já em anos com chuvas prolongadas ou temperaturas atípicas, ela tende a atrasar”, explica o biólogo.
Assim, o início de agosto não representa necessariamente uma anormalidade. A diferença de algumas semanas faz parte do comportamento natural da espécie, que responde diretamente às condições ambientais.
Uma árvore que floresce quando quase tudo seca
O espetáculo dos ipês está justamente na contramão de boa parte das plantas que florescem durante a primavera. No Cerrado, a árvore aproveita o período mais seco do ano para concentrar energia na produção das flores.
Durante a estiagem, os ipês perdem as folhas para reduzir a perda de água. Com a copa praticamente despida, as flores ganham ainda mais destaque.
É um mecanismo de sobrevivência desenvolvido ao longo de milhões de anos de adaptação às condições do Cerrado, marcado pela alternância entre uma estação chuvosa e outra seca.
Segundo Kuhlmann, essa característica ajuda a explicar por que os ipês se tornaram tão emblemáticos em Brasília.
“Antes de florescer, ele perde completamente as folhas, fazendo com que toda a copa fique coberta apenas por flores amarelas. É um espetáculo que chama a atenção.”
Um amarelo que muda a paisagem
No Sudoeste, um único ipê-amarelo já chama atenção de quem passa pela área comercial da CLSW 302. Isolada no canto de um estacionamento, a árvore se destaca contra o céu azul e virou ponto de parada para trabalhadores e frequentadores da região.
Carmem Moreira Nunes, 52 anos, sai diariamente do Riacho Fundo para trabalhar no Sudoeste. Segundo ela, a árvore se tornou uma espécie de atração para os funcionários da loja onde trabalha.
“Todos param para tirar fotos. Ela deixa a paisagem mais alegre, especialmente porque está isolada, então ganha maior destaque com o céu azul ao fundo”, conta a auxiliar de serviços gerais.
Para Carmem, o contraste entre as flores amarelas e o período de seca é justamente o que torna a árvore tão especial.
“É por isso que ele deixa o Cerrado mais bonito”, comenta.
Na Asa Norte, a advogada Bruna Grebot, 35 anos, também percebeu que a floração parece mais lenta neste ano. Moradora da região há três anos, ela costuma caminhar diariamente com a cadela Margô, de seis anos, pelas áreas verdes próximas à L2 Norte.
Bruna conta que, nos anos anteriores, já encontrava mais ipês-amarelos no auge da floração nesta época.
“Traz um certo toque de poesia para o nosso dia a dia. Ter árvores e beleza ao redor faz toda a diferença”, diz.
Brasília espera pelo espetáculo
Mais do que parte da paisagem, os ipês fazem parte da identidade de Brasília. A utilização das árvores no paisagismo e na arborização urbana ajudou a transformar a floração em um dos acontecimentos mais aguardados do inverno brasiliense.
Apaixonado pelo Cerrado, Kuhlmann destaca que o ipê reúne características que o tornaram uma das espécies mais emblemáticas do Centro-Oeste.
Aos poucos, as primeiras copas amarelas começam a aparecer entre as quadras, avenidas e áreas verdes da capital. Se a floração veio algumas semanas depois do esperado por muitos moradores, a natureza parece apenas estar seguindo seu próprio calendário.
E, quando os ipês finalmente florescem, Brasília ganha de volta uma de suas imagens mais bonitas: árvores quase sem folhas, completamente tomadas pelo amarelo, em contraste com o céu azul e a paisagem seca do Cerrado.


Da redação, com informações do Correio Braziliense